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A OMS colocou a evidência no centro: o que muda para as terapias integrativas até 2034

A OMS colocou a evidência no centro: o que muda para as terapias integrativas até 2034

Em maio de 2025, a 78ª Assembleia Mundial da Saúde adotou a Estratégia Global de Medicina Tradicional 2025-2034 da Organização Mundial da Saúde. O documento foi pedido pela própria Assembleia em 2023 e vai orientar as políticas públicas da área ao longo de uma década.

É o tipo de notícia que passa longe do noticiário e muda bastante coisa. Vale destrinchar o que ela diz, porque a leitura apressada tende a puxar para um dos dois extremos: ou "a OMS aprovou as terapias", ou "a OMS não aprovou nada". Nenhuma das duas descreve o documento.

A visão e os quatro objetivos

A estratégia estabelece a visão de um mundo em que todas as pessoas tenham acesso universal a medicinas tradicionais, complementares e integrativas seguras, eficazes e centradas nas pessoas, contribuindo para o mais alto padrão possível de saúde e bem-estar.

Para chegar lá, define quatro objetivos:

  1. Fortalecer as evidências. Desenvolver base científica robusta sobre as práticas.
  2. Garantir segurança e regulação. Estabelecer marcos regulatórios apropriados.
  3. Integrar aos sistemas de saúde. Incorporar as práticas à infraestrutura de saúde existente.
  4. Otimizar o valor intersetorial. Aproveitar as contribuições que vão além do setor saúde.

Repare na ordem. Evidência vem primeiro, e não por acaso. A integração aos sistemas de saúde aparece como terceiro objetivo, e o documento é explícito em condicioná-la: a integração deve ser baseada em evidências, culturalmente respeitosa e alinhada ao desenvolvimento sustentável.

A implementação será guiada por nove princípios, entre eles a base de evidências, o holismo e a saúde, a sustentabilidade e a biodiversidade, o direito à saúde e à autonomia, os direitos, a cultura e a saúde dos Povos Indígenas, o cuidado centrado nas pessoas com engajamento comunitário, os serviços de saúde integrados e a equidade em saúde.

O que isso significa na prática

A formulação da OMS é a que sempre foi, apenas agora com um plano de dez anos por trás: os sistemas médicos tradicionais devem fazer parte da resposta contemporânea aos desafios de saúde, desde que embasados em evidências científicas e inseridos de forma segura nos sistemas nacionais.

A condicional carrega o peso. Ela reconhece práticas como acupuntura, fitoterapia, medicina ayurvédica, medicina tradicional chinesa e medicina antroposófica como campos válidos de cuidado, sim, mas desde que devidamente estudados e contextualizados.

O que a OMS pede aos países é coerente com isso: ampliar as pesquisas de qualidade, fortalecer a regulação, garantir a segurança dos pacientes e promover a integração nos sistemas formais de saúde. As recomendações da OPAS aos países da região seguem a mesma direção, com desenvolvimento de políticas e regulação nacionais, integração à atenção primária, redes colaborativas, formação profissional e apoio à pesquisa.

Nada disso é aval automático. E nada disso é rejeição.

Os mapas de evidência: a ferramenta que responde "funciona para quê"

A parte mais útil dessa agenda, para quem está decidindo se vai marcar uma sessão de alguma coisa, é a menos comentada.

A pergunta "acupuntura funciona?" não tem resposta, porque está mal formulada. A pergunta que tem resposta é "acupuntura funciona para qual condição, comparada com o quê, com que magnitude de efeito e com que qualidade de estudo?". É para responder esse tipo de pergunta que existem os mapas de evidência.

No Brasil, o Observatório de Práticas Integrativas e Complementares produz esses mapas, com o objetivo declarado de apoiar o uso racional, seguro e eficaz das práticas dentro do sistema de saúde. Já existem relatórios clínicos examinando as práticas integrativas para condições de grande peso epidemiológico, entre elas obesidade, diabetes, hipertensão, fatores de risco cardiovascular, depressão e ansiedade.

A lógica de um mapa de evidência é diferente da de um artigo isolado. Em vez de responder sim ou não, ele organiza visualmente o que se sabe: para cada combinação de prática e desfecho, mostra quantos estudos existem, que qualidade têm e para que lado apontam. O resultado costuma ser desconfortável para os dois lados do debate, porque revela tanto associações com sinal positivo consistente quanto áreas em que a produção científica simplesmente não existe.

É exatamente esse desconforto que torna a ferramenta honesta.

Onde o Brasil já está nessa história

O país chega a essa década com estrutura montada, e isso não é comum.

Os números disponíveis dão a dimensão. Em 2019, havia 17.335 serviços de saúde oferecendo práticas integrativas em 4.297 municípios brasileiros. Em levantamento anterior, a oferta aparecia em 9.350 estabelecimentos distribuídos por 3.173 municípios, sendo que 88% se concentravam na atenção básica.

A concentração na atenção primária é o dado mais relevante desse conjunto. Significa que a porta de entrada dessas práticas no Brasil é a mesma porta de entrada do sistema de saúde, e não um circuito paralelo. É justamente o desenho que a estratégia da OMS recomenda.

No perfil de uso, a acupuntura lidera com folga, com 707 mil atendimentos registrados em um único ano, seguida pela medicina tradicional chinesa, com 151 mil sessões, e pela auriculoterapia, com 142 mil procedimentos. No mesmo período, foram cerca de 1,4 milhão de sessões individuais, com estimativa de aproximadamente 5 milhões de pessoas por ano participando de atividades coletivas.

A oferta do SUS foi ampliada em 2018, quando o Ministério da Saúde incluiu dez novas práticas, elevando o total para 29 procedimentos disponíveis à população.

Para efeito de contexto internacional, dados de 2018 mostravam 170 Estados-membros da OMS reconhecendo medicina tradicional e complementar, e metade deles com política nacional definida sobre o tema.

O que muda para quem procura uma terapia

Traduzindo a estratégia para a escala de quem marca uma consulta.

Pergunte pela condição, não pela prática. "Isso ajuda na minha dor lombar crônica?" é uma pergunta respondível. "Isso é bom?" não é.

Complementar quer dizer complementar. A estratégia fala em integração aos sistemas de saúde, não em substituição. Nenhuma prática integrativa substitui tratamento indicado por um profissional de saúde, e interromper um tratamento por conta própria é o risco mais concreto envolvido em toda essa discussão.

Verifique quem aplica. Segurança e regulação são o segundo objetivo da estratégia justamente porque a habilitação de quem executa a prática é parte do resultado, e não um detalhe burocrático.

Desconfie de promessa de cura. Ela não aparece em documento nenhum da OMS, e não deveria aparecer em conversa nenhuma de consultório.

E quando a busca é por alívio de ansiedade ou sofrimento emocional, existe um caminho paralelo e não concorrente: a escuta clínica, tema que o PsicoCast trata com profundidade. Uma coisa não exclui a outra, e a estratégia da OMS aponta exatamente para essa convivência.

O saldo de dez anos pela frente

O que a estratégia 2025-2034 faz, no fundo, é encerrar uma discussão improdutiva e abrir outra mais difícil.

A discussão improdutiva era se essas práticas deveriam ou não existir dentro dos sistemas de saúde. Essa está resolvida: 170 países já as reconheciam e a OMS agora tem um plano decenal para organizá-las.

A discussão difícil começa agora, e é sobre cada prática, cada condição e cada nível de evidência disponível. É um trabalho lento, específico e sem manchete. Também é o único que produz resposta confiável.

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