A auriculoterapia é uma das técnicas da Medicina Tradicional Chinesa (MTC) que mais cresce dentro da saúde pública brasileira. Simples de aplicar e com boa aceitação, ela tem chegado a milhões de pessoas por meio da Atenção Primária. Neste guia, explicamos com calma o que é essa prática, como ela funciona segundo a MTC, o que dizem as evidências disponíveis e como buscar o atendimento no Sistema Único de Saúde (SUS). Vale lembrar, desde já, que a auriculoterapia é uma prática complementar e não substitui o acompanhamento médico convencional.
O que é auriculoterapia
A auriculoterapia, também chamada de acupuntura auricular, é uma técnica que estimula pontos específicos do pavilhão da orelha (a parte externa). Na lógica da Medicina Tradicional Chinesa, a orelha funciona como um microssistema: acredita-se que todo o organismo esteja ali representado, de modo que estimular determinados pontos ajudaria a promover uma regulação do corpo e das emoções.
Segundo o Ministério da Saúde, trata-se de "uma técnica que promove regulação psíquico-orgânica por meio de estímulos em pontos específicos da orelha". Ela integra o conjunto das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) ofertadas no SUS.
Em 1990, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reuniu um grupo de trabalho para padronizar a nomenclatura da acupuntura auricular, reconhecendo-a como um microssistema terapêutico e ajudando a organizar um mapa de referência de pontos. Esse esforço de padronização contribuiu para que a prática ganhasse maior consistência e fosse estudada em diferentes países.
Como funciona a prática
O atendimento costuma ser rápido e pouco invasivo. Depois de uma avaliação, o profissional identifica os pontos a serem trabalhados e faz a estimulação com diferentes materiais.
Os materiais mais usados
- Sementes (tradicionalmente de mostarda) ou pequenas esferas, fixadas na pele da orelha com fita adesiva e pressionadas ao longo dos dias.
- Agulhas próprias para acupuntura auricular, aplicadas por profissional habilitado.
- Esferas metálicas, cristais ou outros elementos, conforme o protocolo e a formação de quem atende.
Quando se usam sementes ou esferas, a pessoa geralmente é orientada a pressionar levemente os pontos algumas vezes ao dia, o que prolonga o estímulo entre as sessões. Pontos frequentemente citados na literatura incluem Shen Men, Rim, Sistema Nervoso Autônomo, Coração e Fígado, entre outros — sempre escolhidos pelo profissional de acordo com a queixa.
Para que costuma ser indicada
O Ministério da Saúde descreve que a técnica "auxilia no manejo da dor, do estresse e da ansiedade, entre outros benefícios". Na prática dos serviços públicos, ela é bastante usada como apoio no cuidado de dores e de queixas emocionais leves a moderadas, sempre de forma complementar ao tratamento indicado pela equipe de saúde.
O que dizem as evidências
Aqui é importante ser transparente. A auriculoterapia é uma prática promissora e amplamente utilizada, mas a qualidade das evidências ainda é desigual, e é honesto dizer isso.
Uma revisão sistemática publicada na Revista da Escola de Enfermagem da USP (SciELO) analisou 24 ensaios clínicos randomizados sobre auriculoterapia para estresse, ansiedade e depressão em adultos e idosos. Do total, 22 estudos (92%) mostraram efeito positivo da técnica. Os próprios autores, porém, ponderaram que os estudos apresentavam "fragilidades metodológicas": metade ficou no limite de recomendação clínica em uma escala de qualidade, e apenas quatro alcançaram a pontuação máxima. A conclusão foi de que ainda são necessários estudos com maior nível de evidência.
Essa ressalva se repete em outras revisões: parte das metanálises sobre ansiedade não encontrou superioridade clara da auriculoterapia em relação ao placebo, e a qualidade dos ensaios varia bastante. Em outras palavras, há sinais favoráveis — especialmente para relaxamento, manejo do estresse e apoio no controle da dor —, mas ainda falta pesquisa robusta para afirmações definitivas. Por isso, o mais responsável é encarar a auriculoterapia como um complemento ao cuidado, e não como cura ou substituto de tratamentos.
Auriculoterapia no SUS
A auriculoterapia é hoje a PICS mais realizada no SUS e a de maior capilaridade na Atenção Primária à Saúde. De janeiro a agosto de 2025, segundo o Ministério da Saúde, quase 3,8 milhões de pessoas participaram de procedimentos de práticas integrativas na atenção primária — um crescimento de cerca de 14% em relação ao mesmo período de 2024. A auriculoterapia respondeu por 26% desse aumento, o que ajuda a explicar sua popularidade.
A técnica é atrativa para o serviço público justamente por ser de baixo custo, rápida e de fácil aplicação. Para ampliar a oferta, o Ministério da Saúde mantém, em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), cursos de formação em auriculoterapia voltados a profissionais de nível superior da Atenção Básica, além de capacitações no ambiente virtual do SUS.
Como buscar o atendimento
- Procure a Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima da sua casa e pergunte se há oferta de auriculoterapia ou de PICS.
- Caso a sua UBS não ofereça, pergunte se há encaminhamento para outra unidade ou serviço do município.
- Leve suas queixas e informe os tratamentos que já faz, para que o profissional integre a prática ao seu cuidado.
Um cuidado a mais no inverno
O inverno brasileiro costuma trazer queixas de tensão muscular, dores e uma sensação de cansaço maior — além de mudanças no ritmo do dia a dia. Na leitura da Medicina Tradicional Chinesa, é uma estação associada ao recolhimento e à necessidade de conservar energia. Sem prometer resultados, muita gente procura práticas como a auriculoterapia nesse período buscando momentos de relaxamento e apoio no manejo do estresse. Se esse for o seu caso, vale conversar com a equipe da sua UBS.
Segurança e bom senso
A auriculoterapia é considerada de baixo risco quando feita por profissional habilitado, mas alguns cuidados valem sempre: manter a região da orelha limpa para evitar irritações, avisar sobre alergias a adesivos e observar a pele durante o uso de sementes. Grávidas, pessoas com condições de pele na orelha ou com quadros de saúde específicos devem informar o profissional antes de iniciar. E, mais importante: a prática não substitui consultas, exames ou medicamentos prescritos. Ela é um apoio dentro de um cuidado mais amplo e integral.