Você já viu as marcas: círculos arroxeados perfeitamente redondos nas costas de um atleta, de um colega de trabalho, de alguém numa foto. Elas viraram o cartão de visitas da ventosaterapia e, ao mesmo tempo, a maior fonte de mal-entendido sobre ela.
A explicação que mais circula é que aquelas manchas são toxinas saindo do corpo, e que quanto mais escuras, mais "sujo" o organismo estaria. Essa leitura é bonita, é antiga, e não se sustenta.
Vamos por partes: o que a prática é, o que as marcas são de fato, e o que a pesquisa científica conseguiu medir até agora.
O que é a ventosaterapia
A técnica consiste em aplicar copos, tradicionalmente de vidro e hoje também de silicone ou plástico com bomba, sobre a pele, criando dentro deles uma pressão negativa. Essa sucção puxa a pele e o tecido logo abaixo dela para dentro do copo.
Há algumas variações principais:
- Ventosa fixa: os copos ficam parados sobre pontos escolhidos, geralmente de 5 a 15 minutos.
- Ventosa deslizante: com a pele lubrificada com óleo, o copo é movido ao longo de uma região, num efeito parecido com o de uma massagem profunda.
- Ventosa com sangria, conhecida como hijama: pequenas incisões superficiais são feitas antes da sucção. Esta variação envolve contato com sangue e exige rigor absoluto de biossegurança, material descartável e profissional habilitado.
A prática tem raízes na medicina tradicional chinesa, onde é lida em termos de circulação de qi e de sangue e de desobstrução dos canais. Mas ela não é exclusiva da China: registros de uso aparecem no Egito antigo, no mundo árabe e na medicina europeia até o século XIX. É uma das técnicas manuais mais difundidas da história.
As marcas: o que realmente acontece na pele
Aqui está a correção mais importante deste texto.
As manchas são equimoses. A pressão negativa rompe pequenos vasos superficiais e faz extravasar sangue para o tecido logo abaixo da pele. É o mesmo fenômeno de um hematoma comum, só que com o formato do copo.
O sangue que fica ali é sangue, não resíduo tóxico. Ele é reabsorvido pelo organismo em alguns dias, normalmente entre três dias e duas semanas, passando pelas cores previsíveis de qualquer hematoma: vermelho-arroxeado, depois esverdeado, depois amarelado.
A intensidade da cor depende de fatores banais: força da sucção, tempo de aplicação, fragilidade capilar da pessoa, uso de certos medicamentos, região do corpo. Ela não mede toxinas, não mede gravidade de doença e não mede quanto a sessão funcionou.
Desfazer esse mito não diminui a prática. Só troca uma explicação folclórica por uma explicação verdadeira.
O que a pesquisa científica encontrou
A melhor síntese disponível em português vem de uma revisão sistemática com metanálise publicada na Revista Latino-Americana de Enfermagem, periódico indexado na SciELO, assinada por Moura e colaboradores. O trabalho reuniu a literatura sobre ventosaterapia e dor crônica nas costas.
Os números da revisão:
- 16 ensaios clínicos randomizados foram incluídos, somando 1.049 participantes, sendo 519 no grupo que recebeu ventosaterapia e 530 nos grupos controle.
- Os estudos vieram de Alemanha, Taiwan, Irã, Coreia do Sul e Arábia Saudita.
- A metanálise, feita com 10 desses ensaios, encontrou redução significativa da intensidade da dor no grupo tratado, com diferença média de -1,59 nas escalas de dor e valor de p igual a 0,001.
Esse é o lado favorável. Agora o lado que os próprios autores fazem questão de sublinhar, e que raramente aparece quando o resultado é citado por aí:
- A heterogeneidade entre os estudos foi de I² igual a 67,7%, considerada de moderada a alta. Traduzindo: os ensaios não estavam medindo a mesma coisa do mesmo jeito, e por isso a média entre eles precisa ser lida com reserva.
- A qualidade metodológica foi mediana na escala Jadad, um instrumento que avalia o rigor dos ensaios clínicos.
- Houve variação substancial na forma de aplicar a ventosa entre os estudos, com técnicas, tempos e números de sessões diferentes.
- Não foi possível fazer análise de subgrupos por falta de estudos comparáveis suficientes.
A conclusão dos autores é honesta e vale ser repetida com as mesmas reservas: a ventosaterapia se mostra promissora para o manejo da dor crônica nas costas em adultos, e a definição de protocolos padronizados de aplicação segue necessária para o uso clínico.
Promissora não é o mesmo que comprovada. E também não é o mesmo que descartada. É exatamente o que a palavra diz.
Como ler esse resultado sem exagerar para nenhum lado
Uma diferença média de -1,59 numa escala de dor é um efeito real e perceptível para quem sente. Numa escala de 0 a 10, sair de 7 para pouco mais de 5 muda o dia de alguém.
Ao mesmo tempo, com heterogeneidade alta e qualidade metodológica mediana, esse número carrega incerteza. Ele não autoriza dizer que a ventosa "cura" dor nas costas, nem que substitui fisioterapia, exercício, tratamento medicamentoso prescrito ou investigação da causa da dor.
A leitura razoável é esta: existe evidência de benefício sobre a dor, ela é encorajadora, e ela ainda não é robusta o bastante para transformar a prática em tratamento de primeira linha. Como complemento, dentro de um plano de cuidado mais amplo, ela tem lugar.
Cabe registrar que a revisão citada é de 2018 e que a produção científica sobre o tema continuou depois dela, com estudos de qualidade variável. O quadro geral, porém, segue parecido: resultados favoráveis para dor, limitados pela falta de padronização.
Onde encontrar no Brasil
A ventosaterapia está entre as práticas contempladas pela Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares, a PNPIC, que organiza a oferta gratuita desse conjunto de procedimentos no SUS.
Na prática, a disponibilidade varia muito de cidade para cidade e depende do que cada município implantou. O caminho mais direto é perguntar na Unidade Básica de Saúde do seu bairro quais práticas integrativas estão em funcionamento por lá.
Cuidados e contraindicações
Antes de marcar uma sessão, considere:
Situações que pedem avaliação médica prévia: uso de anticoagulantes, distúrbios de coagulação, diabetes com comprometimento circulatório, varizes acentuadas, alterações importantes de pele, feridas abertas ou queimaduras na região, e gestação, sobretudo para aplicação lombar e abdominal.
Sobre a técnica com sangria: por envolver contato com sangue, exige material descartável, esterilização adequada e profissional com formação específica. Não é o tipo de coisa para improvisar nem para fazer com quem não pode comprovar a formação.
Sobre o profissional: pergunte pela formação, pela experiência com a técnica e por como ele conduz o acompanhamento. Um bom sinal é o profissional que explica o que a prática pode e o que ela não pode fazer, e que não promete cura.
Sinal de alerta: dor nas costas que vem acompanhada de febre, perda de força nas pernas, alteração no controle da urina ou das fezes, perda de peso sem explicação ou histórico de câncer precisa de avaliação médica antes de qualquer terapia complementar. Nesses casos, a investigação vem primeiro.
O que fica de tudo isso
As marcas não são toxinas: são hematomas com formato de copo, e a cor delas não diz nada sobre sua saúde. A evidência disponível aponta redução de dor em quadros crônicos de coluna, com um efeito real, mas cercado de limitações que os pesquisadores descrevem com clareza.
A ventosaterapia funciona melhor no lugar que sempre foi o dela: complementar ao cuidado, e não substituto dele. Práticas integrativas somam quando entram junto com o tratamento adequado, e não quando entram no lugar dele.
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