Uma técnica antiga que voltou a chamar atenção
Quem já viu as marcas circulares avermelhadas nas costas de atletas olímpicos provavelmente cruzou com a ventosaterapia sem saber o nome. Também chamada de cupping, ela consiste em aplicar copos — de vidro, bambu ou silicone — sobre a pele e criar sucção, formando um vácuo que puxa suavemente os tecidos para dentro do copo. É uma das práticas manuais mais antigas de que se tem registro e, embora tenha virado tendência nas redes sociais, sua história atravessa milênios e vários continentes.
Neste texto, a Equipe Terapias Orientais explica de onde vem a ventosaterapia, como ela é entendida na medicina tradicional chinesa, de que forma chega à rede pública de saúde no Brasil e — com honestidade — o que os estudos científicos realmente mostram até aqui.
As raízes: da China ao Mediterrâneo
Na medicina tradicional chinesa (MTC), a ventosaterapia é uma entre várias técnicas, ao lado da acupuntura, da moxabustão e da fitoterapia. A leitura tradicional fala em estimular a circulação de qi (energia vital) e de sangue e em dissolver o que a MTC chama de "estagnação" — uma linguagem simbólica e cultural, construída ao longo de séculos, que não corresponde diretamente aos conceitos da fisiologia moderna.
Vale lembrar que a prática não é exclusivamente chinesa. Registros de copos de sucção aparecem no Egito antigo, na medicina greco-romana (Hipócrates já a descrevia) e no mundo árabe-islâmico, onde é conhecida como hijama. Essa multiplicidade de origens ajuda a entender por que a técnica assumiu formas tão diferentes.
Hoje costuma-se falar em três variações principais:
- Ventosa seca: apenas a sucção, sem cortes na pele.
- Ventosa deslizante: o copo desliza sobre a pele lubrificada, num efeito parecido com uma massagem.
- Ventosa úmida (hijama): combina a sucção com pequenas incisões superficiais para retirada de sangue — modalidade que exige cuidado redobrado de higiene.
A sucção pode ser feita pelo método de fogo (o ar aquecido dentro do copo se resfria e cria o vácuo) ou por bombas manuais, mais comuns nos copos de silicone.
Como a ventosaterapia chega ao SUS
O Brasil é referência internacional por oferecer práticas integrativas na rede pública. Desde 2006, com a criação da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC), o Sistema Único de Saúde ampliou gradualmente esse leque e reconhece hoje 29 práticas — entre elas a Medicina Tradicional Chinesa/Acupuntura.
Aqui vale uma distinção honesta: a ventosaterapia não é uma das 29 práticas listadas de forma isolada. Ela aparece como uma técnica dentro da MTC, assim como a moxabustão. Na prática, isso significa que a ventosa pode ser oferecida em unidades do SUS que contam com profissionais habilitados em Medicina Tradicional Chinesa, geralmente a partir da Atenção Primária. A disponibilidade, no entanto, varia bastante de município para município — nem toda unidade oferece, e o acesso costuma depender de encaminhamento e da estrutura local.
A lógica das práticas integrativas no SUS é oferecer cuidado de forma ampliada, olhando para a pessoa como um todo, e não apenas para o sintoma isolado. Estados e municípios já publicaram notas técnicas orientando o uso da ventosa e da moxabustão dentro dessa rede, sempre por profissionais capacitados. Ou seja: quando existe, a oferta é gratuita, mas não deve ser confundida com atendimento informal fora de ambiente de saúde.
O que a evidência realmente mostra
Este é o ponto em que o cuidado com a linguagem importa mais. A maior parte dos estudos sobre ventosaterapia investiga quadros de dor crônica, sobretudo dor lombar e dor no pescoço.
Uma revisão que reuniu o conjunto de evidências disponíveis — um "mapa de evidências" publicado no Journal of Clinical Medicine, em 2021 — analisou 13 revisões sistemáticas e classificou a qualidade metodológica delas como, em geral, de moderada a muito baixa. Para a dor lombar, alguns estudos apontaram redução significativa da dor; para a dor cervical, os resultados foram considerados "potencialmente eficazes". Ainda assim, boa parte desses estudos tem alto risco de viés, e os próprios autores reforçam que o mecanismo de ação da ventosa permanece incerto.
Por que tanta cautela? Há dificuldades reais de método. É difícil criar um "placebo" convincente para a ventosa — afinal, as marcas na pele denunciam quem recebeu o tratamento —, o que atrapalha a comparação cega entre grupos. Muitos estudos são pequenos, de curta duração e feitos em populações específicas. O resultado pode ser resumido assim: há indícios de alívio de curto prazo para algumas dores musculoesqueléticas, mas a certeza científica ainda é limitada. A ventosaterapia não tem comprovação para "curar" doenças, tratar problemas internos ou substituir terapias com eficácia já estabelecida.
E aquelas marcas roxas?
As marcas circulares não são hematomas de pancada. Elas resultam da sucção, que traz sangue para a superfície da pele; costumam ser indolores e desaparecer em poucos dias. Quando realizada por profissional treinado e com boa higiene, a ventosa seca é considerada geralmente segura, com efeitos adversos sérios raros nos estudos revisados. Já a ventosa úmida, por envolver pequenos cortes, tem risco maior de infecção se feita sem assepsia adequada. Pessoas com distúrbios de coagulação, que usam anticoagulantes, com lesões ou infecções de pele, e gestantes devem conversar com um profissional antes de considerar a técnica.
Complementar — nunca substituta
Vale reforçar o que orienta a própria política de práticas integrativas: a ventosaterapia é um recurso complementar e não substitui o diagnóstico, o acompanhamento ou o tratamento médico convencional. Se você convive com dor persistente, o caminho mais seguro é investigar a causa com um profissional de saúde. A ventosa pode, eventualmente, entrar como apoio dentro de um plano de cuidado mais amplo — nunca como atalho para abandonar o que já funciona.
Ao procurar a técnica, prefira profissionais habilitados, informe suas condições de saúde e os medicamentos que usa, e desconfie de qualquer promessa de cura milagrosa. Bem-estar responsável começa por expectativas realistas: a ventosaterapia pode ser uma companhia interessante na jornada de autocuidado, desde que ocupe o lugar certo — ao lado da medicina, e não no lugar dela.