Poucos temas dividem tanto quem procura terapias integrativas e quem trabalha com neurologia quanto a acupuntura para enxaqueca. De um lado, relatos de quem diz ter reduzido as crises pela metade. De outro, sociedades médicas pedindo cautela.
Curiosamente, os dois lados costumam estar lendo a mesma evidência — e chegando a ênfases diferentes.
A revisão mais citada sobre o assunto é a da Colaboração Cochrane, publicada em 2016 sob o título Acupuncture for the prevention of episodic migraine, assinada por Klaus Linde e colaboradores. Ela reuniu 22 ensaios clínicos com 4.985 participantes, com estudos publicados até janeiro daquele ano.
Vale ir aos números, porque eles são mais interessantes do que qualquer resumo de manchete.
A acupuntura reduz as crises de enxaqueca?
Sim, reduz — e a revisão traz um exemplo prático de quanto.
Considerando uma pessoa que tem, em média, 6 dias de enxaqueca por mês antes de começar o tratamento, os resultados agrupados apontaram:
- 5 dias por mês para quem recebeu apenas o cuidado usual;
- 4 dias por mês para quem recebeu acupuntura simulada (o chamado sham) ou um medicamento profilático;
- 3,5 dias por mês para quem recebeu acupuntura verdadeira.
Há também um resultado em outro formato. Em quatro ensaios que somaram acupuntura ao cuidado usual, 41 em cada 100 pessoas tiveram a frequência das crises reduzida pelo menos à metade, contra 17 em cada 100 entre as que receberam apenas o cuidado usual.
A qualidade geral da evidência foi classificada como moderada pelos revisores. Isso significa: o efeito provavelmente existe, mas estudos futuros ainda podem mudar a estimativa do seu tamanho.
É melhor do que remédio preventivo?
Ligeiramente, na comparação direta dos números acima — 3,5 dias contra 4 dias. Mas esse "ligeiramente" pede contexto.
Meio dia de enxaqueca a menos por mês é um ganho real para quem convive com a doença, e não é desprezível. Ao mesmo tempo, é uma diferença pequena o suficiente para não sustentar a frase "acupuntura é melhor que remédio" como regra geral.
O que a evidência permite dizer, com mais honestidade, é outra coisa: a acupuntura aparece como uma alternativa de eficácia comparável à profilaxia medicamentosa em pessoas com enxaqueca episódica, com um perfil de efeitos adversos diferente. Para quem não tolera bem a medicação preventiva, isso pesa.
Para quem já usa profilaxia e vai bem com ela, trocar não faz sentido.
E a acupuntura "de mentira"? Por que ela também funcionou?
Este é o achado mais desconfortável da revisão, e o mais importante de entender.
A acupuntura simulada — em que as agulhas são aplicadas superficialmente, ou em pontos que não correspondem aos da medicina tradicional chinesa — produziu 4 dias por mês, contra 5 do cuidado usual. Ou seja: ela também reduziu as crises, e reduziu bem mais do que não fazer nada.
Isso costuma ser usado como prova de que "acupuntura é placebo". Não é uma conclusão sustentável, por dois motivos.
Primeiro, porque a acupuntura verdadeira ainda superou a simulada. Se tudo fosse placebo, os dois grupos teriam empatado.
Segundo, porque a acupuntura sham não é exatamente nada: envolve agulha na pele, estímulo, ritual terapêutico e tempo de atenção de um profissional. Vários pesquisadores argumentam que ela é um comparador "ativo demais" — o que torna a diferença entre real e simulada mais difícil de detectar do que seria contra um placebo verdadeiramente inerte.
O resultado prático é ambíguo, e é assim que ele deve ser apresentado.
Por que o consenso brasileiro é mais cauteloso?
Porque ele responde a outra pergunta.
A Cochrane pergunta se existe efeito mensurável. As recomendações da Sociedade Brasileira de Cefaleia, publicadas em Arquivos de Neuro-Psiquiatria (disponíveis na SciELO), perguntam o que um neurologista deve prescrever primeiro.
O consenso brasileiro posiciona a acupuntura como recurso recomendável em casos selecionados, considerando-a método auxiliar e de eficácia limitada — e registra que a qualidade e a quantidade dos estudos disponíveis não são plenamente convincentes, apontando a necessidade de novas pesquisas com metodologia adequada.
Não é uma contradição com a Cochrane. É uma hierarquia terapêutica. "Tem efeito" e "é a primeira escolha" são afirmações diferentes, e a segunda é bem mais exigente que a primeira.
Tem no SUS?
Tem. A acupuntura é uma das práticas da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC), que oferece 29 procedimentos de forma gratuita no Sistema Único de Saúde.
Ela está entre as práticas mais realizadas na rede pública — tanto na modalidade com agulha quanto com ventosa —, ao lado de meditação, auriculoterapia e yoga.
A disponibilidade, no entanto, varia muito de município para município. O caminho é perguntar na unidade básica de saúde do seu bairro se há oferta local ou encaminhamento para um serviço de referência.
É seguro?
O perfil de segurança é favorável quando a prática é feita por profissional habilitado, com material descartável e técnica adequada. Efeitos adversos existem, mas costumam ser leves e locais: pequeno hematoma, dor no ponto da inserção, sensação passageira de tontura.
Duas ressalvas que importam mais que o resto do texto:
Não interrompa medicação por conta própria. Se você faz profilaxia medicamentosa para enxaqueca e quer experimentar acupuntura, converse com o seu médico antes. Suspender preventivo por conta própria pode desencadear piora — e a decisão não cabe ao acupunturista.
Dor de cabeça nova ou diferente exige avaliação médica. Enxaqueca é um diagnóstico, e diagnóstico é feito por médico. Cefaleia que mudou de padrão, que veio de forma súbita e intensa, que acompanha febre, alteração visual persistente, fraqueza ou confusão precisa de avaliação — não de agulha.
Em resumo
A acupuntura para prevenção de enxaqueca episódica tem evidência de qualidade moderada a seu favor, com efeito modesto, comparável ao da profilaxia medicamentosa, e com bom perfil de segurança. Ela é uma opção legítima — como complemento, dentro de um acompanhamento médico, e sem promessa de cura.
É menos empolgante do que o discurso de quem promete transformação e menos desdenhoso do que o de quem chama tudo de placebo. Também é, provavelmente, o que a evidência sustenta hoje.